* Por Rafael Alves Baracho

Qualidade de vida: exercite também sua mente.

Você está em casa deitado, dormindo, numa madrugada de domingo para segunda-feira. Faz frio, uns 15 graus lá fora, e cai um leve sereno. Você está quentinho debaixo de seu edredom, possivelmente sonhando. Seu celular toca.

Você olha para o aparelho buscando identificar a chamada. É seu meu amigo, aquele que mora sozinho aqui na cidade em um pequeno apartamento próximo ao seu edifício. Veio de uma cidade menor para estudar no cursinho pré-vestibular. Ele não tem família aqui, só você.

“Alô…”, diz você com uma voz de sono quase inaudível. E daí vem o pedido do outro lado da linha: “cara…acho que a pedra no rim atacou…’tô’ travado aqui na cama e não consigo ir ao hospital sozinho. Me ajuda?”

Pausa para relembrarmos que é madrugada e que está frio.

Você iria, leitor? É difícil que eu responda por todos que leram este texto até aqui. Mas, creio que a maioria de nós faria isso por alguém realmente importante em nossa vida (e é a resposta que costumo ter quando conto este caso em público).

Você pegou seu amigo e foi ao hospital, o acompanhou durante todo o tempo e saiu de lá com ele às 6 da manhã. Ele levava consigo um atestado para poder ficar em casa o dia todo se recuperando.

E você? Depois de deixá-lo em casa tem que correr para começar a sua rotina.

Mas tente imaginar uma última cena: seu amigo, ao se despedir de você diz que considera você um verdadeiro amigo, um irmão e que você pode contar com ele para o que precisar. O que você sentiria neste momento? Muito provavelmente, um certo carinho no coração, uma sensação de ter feito aquilo que era preciso, aquilo que fazia sentido para você.

Creio que em nenhum momento desta fatídica noite a emoção “alegria”, aquela empolgação e excitação diante de algo prazeroso, se faria presente em você. Mas uma consciência de que se fez algo valoroso, com muito sentido e alinhado com seus propósitos na vida, isso, por vezes, gera uma sensação boa que nos aproxima da ideia de bem-estar.

Alegria e felicidade são essenciais para o bem-estar?

Conto esta história para deixar claro que nem sempre a sensação intensa de alegria/felicidade seja a única responsável por nosso bem-estar.

Marting Seligman, pesquisador estadunidense, promoveu no final da década de 90 o que chamou de movimento da psicologia positiva. Buscou lançar os holofotes de pesquisas e práticas da psicologia sobre os aspectos saudáveis do ser humano. Queria entender aquilo que promovia benefícios à saúde mental e não apenas aquilo que a prejudicava. E diante disso definiu os 5 elementos que constituem o bem-estar: Emoções Positivas, Engajamento, Relacionamentos Positivos, Significado/Propósito e Realização (no inglês temos o acrônimo PERMA – Positive Emotions; Engajement, Relationships, Meaning, Achievement).

5 elementos do bem-estar:

  • Emoções Positivas: gratidão, prazer, conforto, satisfação com a vida. Sensações que costumamos associar à ideia de felicidade.
  • Engajamento: Completo envolvimento em uma atividade. Estar “focado”, empolgado e atuante em uma causa.
  • Relacionamento Positivo: Ter com quem contar. Sentir-se amparado no mundo.
  • Sentido/Propósito: Sentir que você está honrando quem verdadeiramente é. Crer que aquilo que você faz em seu dia tem valor e te faz querer prosseguir.
  • Realizações: Concluir um projeto, um objetivo, uma meta. Celebrar uma conquista advinda de grande dedicação.

Percebam que as emoções positivas (e a alegria está representada nelas) fazem parte, sim, daquilo que chamamos de bem-estar. Mas o bem-estar é mais do que apenas ficar alegre. Exige que tenhamos atenção e dedicação a uma série de outros elementos.

Portanto, além de perceber tudo aquilo que te faz sentir alegria, se pergunte também:

No que estou engajado? Qual atividade ou projeto hoje consegue atrair minha atenção de forma plena e genuína, sem que esteja sempre querendo “acabar rápido” ou me “livrar logo”? Como estão meus relacionamentos? Estou cuidando deles? Ou vivo o discurso do “vamos marcar qualquer dia desses…”, e esse dia nunca chega?

Cabe lembrar que não basta investir em qualquer relacionamento pois o diferencial é a qualidade dele. Diante de um relacionamento abusivo ou negligente o distanciamento será o melhor para seu bem-estar.

Meu dia-a-dia faz sentido para mim? Me orgulho de fazer o que faço e como faço? Enxergo um propósito maior em minhas ações? Consigo realizar aquilo a que me proponho? Celebro estas conquistas de forma a sempre poder me sentir mais motivado a prosseguir?

Mais do que estar na moda ou nas placas dos estabelecimentos, o bem-estar deve ser promovido em nosso dia-a-dia, em atitudes e pensamentos! Talvez como o exemplo de se ajudar o amigo a ir ao hospital, situação em que se fortaleceu um laço de afeto (Relacionamento Positivo) e se executou algo que fazia sentido para quem se prontificou em auxiliar (Sentido/Propósito). Só assim todos os benefícios físicos, psicológicos e sociais do bem-estar poderão ser alcançados e sua qualidade de vida fortalecida.

*Rafael Alves Baracho

Terapeuta Cognitivo-comportamental na ÁGAPE Psicologia – Centro de Terapia Cognitivo-comportamental. Coach em Saúde e Bem-estar pela Carevolution.