* Por Priscila M. Arbex

O termo microbiota intestinal refere-se à população de microrganismos que habita todo o trato gastrointestinal, e tem como funções manter a integridade da mucosa e controlar a proliferação de bactérias patogênicas. Acredita-se que a nossa microbiota contenha trilhões de micro-organismos, com pelo menos 100 espécies diferentes de bactérias conhecidas, acumulando milhões de genes – 150 vezes mais do que os genes humanos. Não à toa, chega a pesar até 2 quilos.

Quais as funções da microbiota intestinal?

  • Controle da proliferação de bactérias patogênicas presentes no trato intestinal
  • Estímulo do sistema imunológico
  • Regulação da absorção de nutrientes
  • Participação na produção de vitaminas e enzimas, como vitamina K e biotina
  • Produção de componentes necessários para a renovação celular

Embora o padrão da microbiota seja estabelecido na infância, ao decorrer da vida ele pode ser impactado por certos fatores. Podemos citar: indivíduos com o hábito de consumir uma quantidade elevada de alimentos industrializados (carboidratos refinados, açúcares simples e gorduras saturadas) têm maior predisposição para uma alteração na quantidade de bactérias intestinais. Consequentemente, há maior suscetibilidade a problemas como colite ulcerativa, doença de Crohn, síndrome do intestino irritável, etc.

A nossa alimentação diária apresenta mais influência sobre a constituição da microbiota quando comparada aos fatores genéticos (57% vs. 12%). Portanto, cuidar do que comemos não é apenas uma prática que deve ser adotada quando se deseja perder peso. Ela é fundamental para a saúde da sua microbiota, que representa, como a ciência vem mostrando, a sua individualidade.

A ausência de uma microbiota intestinal saudável, colonizada por bactérias benéficas, compromete a integridade da barreira intestinal, tornando-a mais permeável. Isso causa o aumento à susceptibilidade a doenças infecciosas e autoimunes, devido à absorção de agentes patogênicos no tecido e na corrente sanguínea. Além disso, contribui para a má absorção dos nutrientes levando o indivíduo a quadro de carências nutricionais.

Composição da microbiota intestinal e a obesidade

Nos últimos anos, a investigação sobre a microbiota intestinal começou a desvendar seu enorme papel em nosso corpo, e como ela simbioticamente afeta o funcionamento dos nossos órgãos. Em particular, a microbiota tem também um impacto sobre a forma como as calorias são absorvidas e como as células de gordura se desenvolvem. Ao estudar ratos sem microbiota, os cientistas da Faculdade de Medicina da Universidade de Genebra (UNIGE), na Suíça, foram capazes de demonstrar como a ausência de microbiota tem um efeito notável contra a obesidade. Com efeito, ele dispara um mecanismo metabólico surpreendente: células adiposas brancas – que, em excesso, causam obesidade e resistência à insulina – são transformados em células semelhantes à gordura marrom (chamadas de gordura bege), que protegem o corpo contra o excesso de peso e consequentes danos. Esta descoberta, poderia abrir a porta para novos tratamentos anti-obesidade.

Mamíferos têm dois tipos de gordura: gordura marrom, cuja função principal é queimar calorias para produzir calor; e gordura branca, que é utilizada como armazenamento de energia. Em seres humanos sadios, o tecido adiposo branco constitui cerca de 25% da massa corporal. No entanto, quando em excesso, a gordura branca contribui para a resistência à insulina e diabetes. Por outro lado, a gordura marrom melhora a sensibilidade à insulina e é inversamente correlacionada com a obesidade.

Embora a origem destas células pareça igual ao da gordura branca, a sua função é diferente: a gordura mais bege, quando aparece no interior do tecido adiposo branco, proporciona maior queima de calorias. Isto sugere que estimular o crescimento de gordura bege poderia ser uma forma de reduzir a obesidade e limitar a resistência à insulina.

Microbiota intestinal e o desempenho esportivo

A microbiota intestinal saudável é importante para regulação da resposta adaptativa ao exercício e atividade física. Atletas que são expostos a exercícios de alta intensidade, principalmente durante eventos exaustivos prolongados apresentam um aumento nos sintomas gastrointestinais como diarreia, cólica, náuseas, e sangramento. Esses sintomas estão relacionados a uma alteração na microbiota intestinal ocasionada pelo estresse pode levar a um quadro de disbiose.

Estudos desde 2006 vêm examinando a suplementação de probióticos em atletas ou indivíduos altamente ativos, e têm indicado benefícios relacionados à redução da frequência e duração de doenças relacionadas ao trato gastrointestinal e doenças respiratórias.

A ação dos probióticos se dá pelo auxilio na manutenção da integridade da barreira intestinal, colonização do intestino pelas bactérias benéficas, e consequentemente melhora na resposta imunológica sistêmica, gerando impacto positivo no rendimento do atleta. Alguns resultados demonstram benefícios promissores para utilização de probióticos no sistema imunológico do atleta.

Há também evidências de que a suplementação de probiótico associado ao uso de prebióticos pode ser estratégia nutricional para a melhoria de rendimento do atleta.

Deve-se associar uma dieta equilibrada e saudável ao uso de probióticos como importante papel nutricional para melhoria de performance em atletas, através da redução da frequência e gravidade de doenças do trato gastrointestinal e respiratórias.

O que são e qual o papel dos prebióticos e probióticos?

Os prebióticos são fibras solúveis digeridas por enzimas derivadas da microbiota intestinal e transformadas em ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), butirato, acetato e propionato, que são absorvidos no intestino e utilizados pelo indivíduo como energia , além de promoverem saciedade e síntese de vitaminas.

Os probióticos são as bactérias “do bem”, principalmente bifidobactérias e lactobacilos que estão presentes em produtos fermentados lácteos, como o iogurte ou em forma de suplementos em pó ou cápsulas. A suplementação de probióticos é focada na saúde intestinal. Porém, ao longo dos anos, novas pesquisas vêm sendo realizadas e a suplementação de probióticos vêm sendo associada a tratamento de alergias, doenças metabólicas, depressão, doenças inflamatórias gastrointestinais, respiratórias e outras.

Como consumir probióticos?

Algumas fontes de probióticos podem ser encontrados naturalmente em alimentos e bebidas, as bactérias ocorrem naturalmente nesses alimentos ou foram adicionadas durante a preparação, como iogurte natural; kombucha; leite fermentado e coalhada.

Existem vários tipos de bactérias e escolher um suplemento probiótico não deve ser uma decisão aleatória. É importante que você e seu nutricionista decidam a necessidade de ingerir probióticos e qual é mais indicado para suas necessidades de saúde digestiva.

* Priscila M Arbex
Doutoranda em Saúde Brasileira  (UFJF); Mestre em Ciência da Nutrição (UFV); Especialista em Treinamento Desportivo (UFJF) e Nutricionista clínica.